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Individualismo Metodologico

Temos visto que a metodologia da libertação (aqui chamada “marxismo”) é essencialmente uma manipulação dessas arquias que conhecemos como “classes ideologicamente constituídas”, visando a garantia de que as classes inocentes dos oprimidos prevaleçam sobre as classes cruéis dos opressores. Entretanto, ao invés de qualquer coisa que se assemelhe a uma “teoria árquica”, o individualismo metodologico chega até o problema das classes através de uma aproximação radicalmente anarquista. O individualismo metodológico vai simplesmente negar que essas “arquias de classes” (mulheres contra homens, pobres contra ricos, escravos contra senhores, judeus contra gentios) tenham algum poder real, alguma significância ou realidade. Ele alcançará uma comunidade sem classes – não tentando subjugar pela força as diferenças de classe – mas sim ignorando-as e vivendo acima delas, simplesmente procedendo de maneira a viver sem classes. Esse individualismo opera por meio da idéia da insistência que seres humanos são sempre indivíduos e nunca unidades que constituem coletivos de massa chamados “classes”. Subentende-se, é claro, que esses seres humanos sejam tratados como indivíduos ao invés de serem embolados em “solidariedades” e manipulados pelo interesse de qualquer luta de classes. O conceito marxista de “solidariedade de classe” é uma invenção, uma ficção, um logro e uma desilusão. É tão intangível quanto qualquer fantasma que tenhamos algum dia fantasiado. A identidade de ninguém é essencial, por exemplo, “mulher” – isso automaticamente a coloca numa solidariedade ideológica, fazendo dela uma da classe, fazendo dela uma “irmã” para qualquer bloco de poder que se auto intitule MULHER. Não, ela é quem ela é, um indivíduo que – de maneira alguma determinada pelo seu gênero – será “mulher” se ela escolher se definir assim; será dada a ela qualquer “solidariedade” que ela quiser, ao invés de ser empurrada para qualquer tipo de distinção de classes ; será feito do seu gênero o que ela decidir fazer disso; ela será “irmã” de algum homem porco chauvinista se for isso o que ela deseja (os homens também tem “irmãs”, você sabe). Ela pode ignorar a sua classificação e viver fora de qualquer classe; se for isso o que ela desejar fazer. Uma pessoa pode estar involuntariamente sob servidão – mas isso não faz dela, involuntariamente, um membro da “classe escrava” – isso não dita que ela tenha que participar da mentalidade escrava, ter uma solidariedade ideológica com todos os outros escravos, enxergar o seu amo como um inimigo opressor, ou se deixar ser usado como um peão em qualquer luta de classes. Mesmo se 99% dos escravos demonstrar um caráter em particular, não quer dizer que a pessoa deva. Sua individualidade sempre tem preferência sobre esse tal status de classe. Se for de sua vontade, um homem tem o direito de ser atingido pela pobreza sem ser amarrado no “o pobre humilde [quem] crê” de Charles Wesley. E ser rico não coloca necessariamente alguém em solidariedade com “os ricos orgulhosos que não crêem”. Porque existem somente indivíduos de todos os tipos que chegaram a baixos níveis de renda de várias maneiras, e que estão encontrando essa situação de várias maneiras... e porque existem somente indivíduos (bem possivelmente alguns do mesmo tipo de pessoas que, sem mudar ideologicamente, já foram alguma vez parte de outra classe), que chegaram a altos níveis de renda de várias maneiras e estão encontrando a situação também de diferentes maneiras. Portanto, não existem tais entidades como um bloco dos “ricos orgulhosos” oprimindo o bloco dos “pobres humildes”. A criação de uma sociedade socioeconomicamente sem classes, dificilmente se realizará com a promoção de uma guerrilha de classes entre solidariedades imaginárias.

Anarquia Cristã - Vernard Eller (1987)
ver também "O Problema da Tomada de Poder"
http://pseudonimoantifascista.blogspot.com.br/2012/05/o-problema-da-tomada-de-poder-por-uma.html

O Problema da Tomada de Poder

"Faça guerra contra as guerras. DESTRUA O PODER, não o povo" Crass


Iremos agora realizar um rastreio na história bíblica, com a intenção de mostrar (1) que o marxismo da “abolição de classes alcançada através da luta de classes” tem se mostrado como uma operação fútil, na qual a humanidade tem sido enganada o suficiente para tentar; e (2) que a transição feita na Anarquia pode fazer (e tem feito) o que o marxismo nunca poderia. Do (quase) começo ao (quase) fim, a Bíblia apresenta um retrato clássico (talvez o retrato clássico) da luta de classes diante da ausência de classes. Lembre-se que, no nosso atual contexto, “ausência de classes” é um sinônimo de “justiça”. As duas classes sobre as quais iremos falar foram, ao mesmo e único tempo, diferentes religiosa, étnica, cultural e socioeconomicamente – bem como sobre a base de “oprimidos” e “opressores”. Nesse contexto, os oprimidos são “os judeus” e os opressores “os gentios” (de diferentes variedades). Assim, os padrões do marxismo são óbvios.
* O PRIMEIRO ROUND é o êxodo do Egito, com os escravos hebreus enquanto classe oprimida, e os senhores egípcios no papel dos opressores gentios. Não há questionamentos acerca da justiça da causa da luta dos escravos hebreus por liberdade – como é o caso em todos os pontos a seguir. Nossa preocupação não é se qualquer revolução é justa, mas sim se qualquer estratégia marxista cumpre o prometido. Aparentemente, por terem os escravos hebreus começado virtualmente sem nenhum senso de identidade em comum, nesse caso parece ser a necessidade primária de consciência de classe um obstáculo maior. Atos 7:25 é bem específico, ao dizer que Moisés, ao matar um capataz egípcio, teve a pretensão de um sinal de revolta, e que o assunto não vingou porque os hebreus não tinham um senso de solidariedade de classes para entender qual era o papel deles aqui. Antes da próxima tentativa de Moisés funcionar, foi necessário um aumento na consciência de que “nós somos a classe escrava oprimida, o povo de Deus, e eles são o inimigo, o grupo opressor; e o que devemos fazer é nos unir e combatê-los”. O padrão é o de toda e qualquer luta de classes de sempre. Dentro do programa, novamente, a luta atual é interpretada como “guerra santa”, Deus posicionando-se por completo ao lado da classe oprimida contra a opressora – Deus não somente aprova a revolta, assim como ajuda e dá a vitória. Os hebreus vencem os egípcios, e essa ameaça gentílica é eliminada. O problema é que a vitória falha ao traduzir-se em qualquer coisa que possa ser chamada libertação, justiça ou ausência de classes. O que temos, ao invés disso, não são simplesmente as dificuldades do deserto, mas, mais importante, o caos espiritual desses homens livres, desejando nada mais do que voltar à escravidão no Egito e, também, às eras escuras do Antigo Testamento, descritas em Josué e em Juízes. Tudo o que o Êxodo fez foi preparar a próxima etapa da próxima luta de classes.
* O SEGUNDO ROUND apresenta o Israel oprimido contra os cananeus gentios (e uma reunião de outras tribos pagãs). Aparentemente está ao longo desta prolongada luta que a consciência de classe de “nós judeus contra eles gentios” foi marcada a ferro na psique de Israel, assim como seu senso de identidade fundamental. Agora, a “guerra santa” tornara-se uma realidade, e um conceito teológico explícito. Com a ajuda de Deus por meio dos reis Saul, Davi e chegando ao ápice no reino de Salomão, a guerra santa de Israel é vencida, e os gentios opressores saem de cena. O povo de Deus agora está no controle, não há nada que possa impedir a sociedade justa e sem classes pela qual eles estavam lutando. O que aconteceu então? Bem, acho que simplesmente para impedir o povo de se sentir perdido por não ter qualquer opressão da qual se queixar, rei Salomão voluntariamente deu um passo para a violação, cobrando impostos de matar, e até mesmo sujeitando seus amigos judeus à escravidão. Isso, é claro, levou à guerra civil e à queda do reino. E enquanto o pai Davi chutou os cananeus pela porta da frente, o filho Salomão deixou deslizar sorrateiramente a religião cananéia pela porta dos fundos com suas esposas pagãs e seus seguidores. O rei Acabe, você lembra, até mesmo casou com Jezebel e a ajudou a estabelecer o baalismo como religião do reino. O que, de acordo com a teoria marxista, deveria ter sido por direito o alcance de Israel de sua sociedade justa e sem classes, se transformou no período no qual os profetas mal conseguiam evitar a completa paganização da fé de Israel.
* O TERCEIRO ROUND é a dominação e opressão dos reinos israelitas por parte dos invasores gentios assírios. O povo de Deus não estava em sua melhor posição para combatê-lo. Israel, o reino do norte, se perdeu completamente, e o reino do sul, Judá, foi salvo por um milagre de Deus. Ainda que “salvo” é usado aqui, é claro, num sentido bastante limitado. Judá não conseguiu se utilizar de sua “salvação” para qualquer fim; simplesmente tornou-se um estado fantoche, assirianizado.
* O QUARTO ROUND dos “pobres de Deus” contra a opressão gentílica é a destruição de Jerusalém pela Babilônia. À primeira vista, esse pode parecer um fato do tipo no qual a classe oprimida perde tudo. Entretanto, na intervenção divina, o período do exílio leva a um “retorno à terra” no qual o Deutero-Isaías proclama como a melhor oportunidade de todas para ser o bom povo de Deus, uma amostra de que “toda carne deve enxergar junta”, trazendo até mesmo os gentios para dentro da única sociedade verdadeiramente justa e sem classes de Deus. Infelizmente, mesmo quando lhes foi dada a vitória na luta de classes, os libertos novamente estragaram a recompensa. A maravilhosa visão de Deutero-Isaías não veio (ao menos no tempo e na maneira que ele viu). Ao invés de trazer qualquer dos gentios à ausência de classes, no retorno à terra sob a liderança de Esdras e Neemias, a consciência de classe dos “piedosos judeus contra os malditos gentios” foi elevada ao alto grau da intolerância, exclusão e chauvinismo nacionalista. Os livros de Rute e Jonas provavelmente foram escritos como um protesto direto contra esse espírito – um espírito que talvez seja melhor exemplificado no édito de que os homens judeus devem abandonar e rejeitar suas esposas gentias. Aqui havia uma sociedade sem classes, no sentido de que a classe oprimida tomou por completo a idéia e excluiu qualquer presença de outras classes. Mas esse não é um bom exemplo de “ausência de classes”.
* O QUINTO ROUND é a revolta dos judeus macabeus contra os gentios helênicos, os selêucidas. É novamente um caso de revolta bem sucedida, com os resultados sendo nada mais que os novos “oprimidos” livres tornando-se a próxima geração de “opressores”.
* O SEXTO ROUND mostra os zelotes, os leais combatentes da liberdade do judaísmo, contra o Império Romano gentio. Essa revolta dos oprimidos foi sem dúvida a falha mais visível de
todas.
* O ÚLTIMO ROUND é o ataque sobre o problema de classes dos judeus/gentios realizada pelo único Jesus de Nazaré. Aqui – e somente aqui – pode ser dito que o resultado foi qualquer coisa remotamente semelhante à verdadeira ausência de classes. A respeito desse caso – e somente este caso – um apóstolo pôde declarar: “Não existem judeus nem gentios,... pois vocês são todos um em Cristo Jesus.”
“Ah, então a estratégia marxista funcionou e irá funcionar... se ela tomar Jesus como seu patrocinador?” – é o que muitos teólogos da libertação parecem estar dizendo.
Não, não, não, não! O sucesso de Jesus vem de algo além do método político da teoria marxista. Vem do caminho pela liberdade.O caminho da Anarquia

Anarquia Cristã - Vernard Eller (1987)

ver também "O Problema do Classismo"
http://pseudonimoantifascista.blogspot.com.br/2012/05/o-problema-do-classismo.html

O Problema do Classismo

"Classe, classe, classe, sempre o mesmo papo de merda, classe média, classe trabalhadora, eu não me importo. Pretos ou brancos, punks ou skins, não há certo ou errado! Nós todos somos apenas seres humanos, alguns de nós podres, alguns de nós bons. Você pode se encher de suas falsas divisões porque juntos eu sei o que nós poderíamos burlar o sistema, quebrar suas regras. Não tenho classe, eu não sou um tolo. Burlar o sistema, acabar com seus direitos. Não tenho religião porque eu sei que há mais. Burlar o sistema, acabar com seu jogo. Não tenho cor, somos todos iguais. Gente, gente, não de classe, cor ou credo. Não destruam o povo, destruam o seu poder e sua ganância"

Primeiro, enquanto pensamos sobre “classes” e “ausência de classes”, é preciso manter a consciência do grande alcance das distinções que podem estar envolvidas. Nos dias atuais, as pessoas estão agrupadas não somente por funções socioeconômicas, mas também por gênero, idade, identidades raciais e étnicas, nível educacional, linguagem, hábitos de votação, hábitos de compra e preferências religiosas, para citar alguns. Temos distinções de classe o suficiente para cortar a sociedade na maneira que quisermos.
Não conheço o suficiente para falar com autoridade, mas minha impressão é de que o marxismo foi a primeira filosofia popular a basear toda a sua compreensão de história social sobre as premissas da distinção de classes, consciência de classes e luta de classes – tudo, é claro, dedicado ao objetivo de uma sociedade sem classes. Para essa dimensão, assim como todo o pensamento social moderno, cristão e secular, é marxista: “distinção de classes” (e o conflito que ela envolve) não é apenas o único fato básico sobre a sociedade, mas também sua esperança, seu meio de salvação, o instrumento essencial para levar a sociedade ao seu objetivo de não existirem mais classes.(A seguir, é isso que eu quero dizer por “marxismo”. É uma maneira curta para dizer “qualquer filosofia que defina progresso social em termos de luta de classes diante da ausência de classes”. Meu uso de palavras não tem por intenção trocar sentidos, é totalmente descritiva e de maneira alguma pejorativa). Porém, tais “marxismos” – até mesmo sendo sinceramente dedicados à ausência de classes – não vêem outra possibilidade de sair dessa a não ser ao dar uma volta de 180 graus em outra direção. A abolição das classes só pode ser alcançada primeiramente localizando a diferença entre elas, o que é a raiz do problema. A “classe oprimida” e a “opressora” devem ser apontadas e publicamente identificadas. Feito isso, a consciência de classe dos oprimidos deve ser elevada – o que, é claro, inevitavelmente leva ao aumento da consciência de classe da oposição também. Uma polarização deliberada está ganhando espaço de tal forma para que a classe oprimida possa consolidar o seu poder (“solidariedade” é uma boa palavra, “solidariedade ideológica”) – isto para se preparar para a luta, a guerrilha, a qual entende-se que culminará na abolição das classes. Obviamente, a ação serve para exacerbar a grande distinção de classes a ser eliminada – mas não há outro caminho. A “classe oprimida, porém correta”, deve ganhar forças sobre a “classe opressora e perversa”, para então substituí-la, destruí-la, dominá-la, absorvê-la ou convertê-la, para então deixar tudo como único, e portanto, a classe “sem classes”. A solidificação e polarização ideológica da distinção de classes, com a anexação intensificada da classe, é o único caminho para a abolição das classes.
Identificada, essa teoria marxista apresenta alguns problemas: entrar no jogo do antagonismo de classes pelo interesse da abolição de classes? Mas eu não sei se tem alguma solução melhor (na verdade, eu sei; mas quero guardar isso por um momento). Na prática comum, é claro, o negócio acontece de acordo com o programa, através do apontamento da diferença entre as classes, o aumento da consciência, a construção da solidariedade ideológica, e a matiz e o choro da luta de classes – somente para alcançar o passo final da abolição de classes. Por alguma razão, nesse ponto, tudo o que pode acontecer de errado, invariavelmente acontece. Assim, com a União Soviética do proto-marxismo, os camaradas da classe trabalhadora oprimida alcançaram sua solidariedade, venceram sua revolução, e até mesmo estabeleceram uma burocracia que foi seu instrumento para a criação da sua sociedade sem classes. Porém, ao invés de uma sociedade operária sem classes se tornar a ordem do dia, observe bem, a burocracia sozinha introduziu uma nova distinção de classes – fazendo isso sozinha, tornando-se totalitária sobre tudo. Assim como veio; assim se foi. Porém, como sempre, damos ao marxismo outra chance – pois o que mais temos? Se a distinção de classes é o que nos é “dado”, a única entidade que temos para trabalhar; e se o conflito inerente entre as classes é o que devemos derrotar – então além da luta de classes, o que mais pode existir? Todos os movimentos de libertação atuais mostram isso. Vou usar agora um deles como ilustração para todos. O objetivo alto e claro do movimento feminista é criar uma sociedade na qual as distinções sociais entre homens e mulheres sejam reduzidos a adiaphora, questões sem conseqüências. Não só as sugestões de desigualdade, mas mesmo as marcas que distinguem ambos devem ser minimizadas. Uma verdadeira abolição de classes deve transparecer. Porém a abolição de classes não pode acontecer pelo rebaixamento direto das diferenças; o poder da classe opressora deve primeiramente ser quebrado. Não, os passos imediatos devem apontar diretamente para longe do último objetivo que eles deveriam servir. Portanto: “Sim, os dois gêneros devem ser tratados sem distinção”. Então, desde tempos imemoriais temos uma língua inglesa que nos permite falar sem deixar pista alguma de qual dos dois gêneros humanos estão envolvidos, que não existe nem mesmo uma distinção conhecida como “sexo”. No entanto, esse modo dificilmente serve para o aumento de consciência de classe por parte das mulheres. Portanto, a regra agora é falar (com o dobro de pronomes e similares), para que essa diferença de gêneros fique sempre proeminente, para que o uso da terminologia de gênero seja preferencial àquela que não faça a distinção, tomando o cuidado de especificar tanto mulheres quanto homens. A gramática feminista é designada para servir à conscientização de gênero, não à abolição de classes da ignorância de gênero. Sendo assim: “Sim, o objetivo é que a diferença de gênero desapareça”. Entretanto, no caminho para esse objetivo, a distinção da classe feminina é necessária. Sim, até mesmo essa comunhão em comum de mulheres e homens deve ser negada – pelo objetivo final da abolição de classes! Nesse contexto: “Sim, procuramos pelo dia em que a diferença entre mulheres e homens serão vistas como insignificantes, se não inexistentes”. No entanto, por causa da solidariedade ideológica necessária para nos trazer até aqui, a encontramos pronta para posicionar uma distinção moral absoluta entre os sexos – ou seja, de que são os homens que causam guerras e que, se lhes derem uma chance, mulheres poderiam criar a paz.
Por favor compreendam bem quando eu digo que não estou aumentando essas ambigüidades e contradições como se fossem idiotices ou coisas sem sentido. Não, sob a preposição de que a luta de classes é o único caminho para a abolição de classes, essas estratégias são óbvias, apropriadas e necessárias.
Numa sinceridade na qual não cabem dúvidas, as feministas alegam que o seu interesse não é apenas se libertar, mas também libertar os homens. Ainda que isso deva ser reconhecido como o começo de toda linha revolucionária de toda luta de classes já montada. Entretanto, a questão é se a verdadeira abolição de classes pode ser alcançada através de uma classe que receba o poder de ditar os termos dessa abolição. Mais ainda, isso pode ser chamado de “libertação” para que outras pessoas tomem isso sobre si mesmas para libertar você, de acordo com a idéia delas de o que a nossa libertação deve ser? Me ocorre que “libertação” é um termo que cada pessoa deve definir por si mesma. Mas se “distinção de classes” e “luta de classes” são nossos meios escolhidos, é possível que a contradição um dia seja vencida? – que “abolição de classes” possa significar algo mais que “somos todos de uma só classe agora, porque a nossa é essa”; ou “libertação” significa algo mais que “você agora está livre, pois estamos em posição de lhe dizer que você está”?
Não usamos o termo aqui, porém deve ser claro que o que estamos chamando de “marxismo” é uma forma particular de “fé-arquia”. É a fé de que a luta entre as arquias chamadas de “classes” pode ser montada humanamente para resultar na salvação social chamada “sociedade sem classes”.
Vernard Eller (Anarquia Cristã pag 61-64)

ver também "não-arquia e fé-arquia"
http://pseudonimoantifascista.blogspot.com.br/2012/05/anarquia-anti-arquia-ou-nao-arquia.html

Não-Arquia e Fé-Arquia

A palavra é ANARQUIA. O prefixo (“an-“) é o equivalente ao inglês “un-“, que significa “não”; particularmente não significa “anti-“ ou contra. Então, estamos falando de algo que é mais não alguma coisa do que algo oposto ou contra alguma coisa. A raiz “-arquia” (na qual eu fiz o termo em inglês soletrado a-r-k-y5) é um termo comum grego que significa “prioridade”, “primazia”, “primordial”, “principal”, “príncipe” e afins (Olhe a última frase e perceba que “pri-“ é simplesmente o equivalente latino ao grego “arquia”). Então, para nós, “arquia” identifica qualquer princípio de governança que reivindique ser um valor primário para a sociedade. “Governo” (que é determinado para governar ações e eventos humanos) é um bom sinônimo – contanto que sejamos claros, que arquias políticas estão longe de serem apenas “governos” que nos cercam. Em absoluto; igrejas, escolas, filosofias, padrões sociais, pressões entre colegas, modismos e modas, publicidade, técnicas de planejamento, teorias psicológicas e sociológicas – são todos arquias que desejam nos governar. “Anarquia” (“sem arquias”), é simplesmente o estado de não ser impressionado com; desinteressado em; cético em relação a; indiferente para; e não influenciado pelas reivindicações pretensiosas de toda e qualquer arquia.Obviamente, a idéia de “poder” vai no mesmo sentido de “arquia”; os dois são inseparáveis. De fato, toda fez que Paulo usa “arquia” no sentido de “principados”, ele junta o termo com umadas palavras gregas para “poder”. Ainda falando tanto de “poder” e “arquia” devemos fazer uma especificação crucial: estamos sempre supondo um poder ou governo que é imposto sobre seu eleitorado. Obviamente, isto é apropriado ao falarmos de, digamos, “o poder do amor”. Já que esse é um poder em um sentido completamente diferente da palavra, à medida em que não carrega indícios de imposição. Todas as arquias mundanas são naturalmente heterônomas – cada uma está aí para impor sua idéia de o que é certo sobre qualquer um que tenha qualquer idéia diferente. Nesse ponto de definição, então, devemos notar que a idéia de “revolução” não é anárquica em qualquer sentido da palavra. Revolucionários são opositores muito fortes à certas arquias que eles consideram “más” e que são o trabalho de “pessoas más”. Porém, eles também estão fortemente a favor do que eles consideram como “boas” arquias, que não deixam de ser o trabalho deles mesmo e de outras boas pessoas como eles. Por exemplo, esses revolucionários podem tentar ser superanarquistas, não encontrando nada de bom a dizer sobre a arquia institucional dos EUA; mas eles tornam-se extremamente proarquistas, não encontrando nada a não ser boas coisas a dizer sobre a arquia revolucionária sandinista. Certamente, o procedimento regular de “revolução” é formar uma (boa) poder-arquia que possa derrubar e afastar, ou ainda transformar radicalmente a atual (má) arquia no poder. Essa seletividade é igual à uma fé apaixonada no poder das arquias para o bem humano, e a coisa mais distante possível de uma desconfiança anarquista em relação à qualquer arquia humana. Apesar de “anarquista” ser um sinônimo para “não partidário”; e “anarquia” e “partidarismo” estarem em direções contrárias. “É claro, o pensamento não pode ir muito longe nessa direção antes de chegarmos a uma palavra que é muito esquecida hoje. Ainda há algo a ser dito para ela. Eu a citarei bem aqui:
‘Anarquia”. No que diz respeito aos habitantes da Terra, uma certa liberdade, uma verdadeira falta de controle, seria quase melhor do que este negócio de pregados-e-apertados, que transforma indivíduos em rebanhos fechados para cada grande pensamento.” (Thy Kingdom Come [Eerdmans, 1980], p. 21).
e Ainda:
“As pessoas estão com medo do colapso mundial. Eu estou ansioso por isso. Queria que começasse bem agora a colisão. Para esse mundo, a grandeza humana é e continua sendo a causa de toda a miséria. Elas não podem fazer nada acerca disso; essas pessoas bem intencionadas, esses bons ministros, esses excelentes prelados e papas. Não interessa o quanto tentem, não podem. Eu gostaria de dizer a todos eles, ‘Você não pode fazer isso!’.”
Mais recentemente, Ellul publicou uma autobiografia, em forma de entrevista, intitulada In Season, Out of Season (Harper & Row, 1982; depois, Season). Nesta, ele usa o termo anarquia muito pouco. Porém, a maior parte da entrevista é relevante. Por exemplo, ao responder a questão “Você se considera um anarquista?”, ele diz:
“O meio anarquista é o único no qual freqüentemente me sinto bem. Sou eu mesmo. Não me sinto a vontade no meio da direita, a qual não me interessa, nem no meio da esquerda, para a qual eu não sou demasiadamente socialista, muito menos um comunista. E de modo algum, realmente de modo algum, não me sinto a vontade no meio da esquerda cristã...
[O entrevistador pergunta:] Contudo, você não é partidário de uma sociedade mais racional?
Oh, não, de maneira alguma. Ao contrário, creio que o melhor que poderia acontecer à sociedade hoje é um aumento na desordem... Não estou de maneira alguma argumentando em favor de uma ordem social diferente. Estou defendendo a regressão de todos os poderes de ordem.” (pp 195-196).
A fé-arquia simplifica, e muito, a tomada de decisões morais. Um escape para a terrível ambigüidade e complexidade que é lidar com indivíduos, que sempre são uma grande mistura de bem e mal, forças e situações que são muito parecidas. Agora, alguém pode pensar em termos de blocos de poder árquicos homogêneos, que claramente se classificam em bom ou mau; a moralização pode ser feita facilmente através de qualquer reflexão idiota. Sendo assim, “pacifismo” (ou qualquer atributo) é bom e qualquer coisa que não seja pacifismo é uma “máquina de guerra do mal”. Um governo capitalista dos EUA é mau; um governo sandinista socialista é bom. “Masculinidade” é mau; “feminismo” é bom. A Moral Majority é má, o National Council of Churches é bom. Corporações multinacionais são más, indústrias familiares são boas. Escolhas morais tornam-se maravilhosamente descomplicadas quando questões humanas são simplesmente compreendidas em termos de disputas de arquias que vestem chapéus pretos e chapéus brancos. O problema, é claro, é que esse modo de encarar a moral não tem muita relação com a realidade. Contudo, a respeito do dever em si; eu poderia dizer que se a nossa posição deve ou não ser cobrada como “apolítica”, depende inteiramente do que se define por “política”. Se “política” é tomada em seu sentido estreito, significando os meios e métodos que o mundo normalmente aceita como normativa para fazer a sua política, então a minha posição é claramente a do apoliticismo. Se, porém, “política” for entendida em seu sentido etimológico amplo, como identificador de quaisquer ações que tem efeitos públicos sobre a vida da “cidade” (polis), então não há base para acusar a “mim” ou aos “meus” de advogar o apoliticismo. Em segundo lugar, uma característica primária das políticas mundanas é a sua invariável formação de uma “batalha contraditória”. Deve haver uma batalha. Um partido, ideologia, grupo de causa, lobby, ou bloco de poder que se auto-designa como “O Bem, a Verdade e a Beleza”, prepara-se para dominar, oprimir, vencer, ou impor-se sobre quaisquer grupos opostos que pensam que eles não merecem tal título. Se essa disputa de poder entre os moralmente pretensiosos é o que se entende por “política”, então Eller e companhia estão de fato felizes de serem chamados de “apolíticos”.
(Anarquia Cristã - Vernard Eller)